Nota de Falecimento: Anna Carolina Krebs Pereira Regner (1947-2020)

Anna Carolina Krebs Pereira Regner em sua casa. Foto de Betty Smocovitis.

Anna Carolina recebe Betty Smocovitis e Michael Ruse, para evento que organizou no Grupo Interdisciplinar em Filosofia e História das Ciências (GIFHC), do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Ana Maria de Andrade Caldeira
Presidente da ABFHiB
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, campus de Bauru (UNESP/Bauru)
anacaldeira@fc.unesp.br; presidente@abfhib.org

É com grande pesar que a Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB) comunica o falecimento de Anna Carolina Krebs Pereira Regner, ocorrido em Porto Alegre nesta sexta-feira, 31 de janeiro de 2020.

A professora Anna Carolina Regner fez parte do grupo de fundadores da ABFHiB, ocupando o posto de Conselheira de 2006 a 2019, quando sua saúde não mais lhe permitia seguir com as atividades profissionais. Ao longo de todos esses anos, Anna Carolina sempre atuou com muita altivez na área de filosofia e história da biologia, e foi uma colega e amiga muito estimada pelos colegas e inspiradora de dezenas de jovens estudantes.

Anna Carolina Regner foi também fundadora da Associação de Filosofia e História das Ciências do Cone Sul (AFHIC), tendo promovido o I Encontro de Filosofia e História das Ciências do Cone Sul, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 1998. Foi Conselheira da AFHIC e ocupou o cargo de presidente no biênio 2009-2010. Anna Carolina atuou também como Vice-Presidente e Conselheira da Associação Brasileira de História da Ciência (SBHC), além de ter participado ativamente de outras associações internacionais da área. No fomento à pesquisa no Brasil, atuou como membro do Colégio de Consultores da Coleção Memória do Saber do CNPq. Foi Diretora da Coleção de Filosofia e Ciência da Editora UNISINOS e participou do Conselho Científico de diversos periódicos nacionais e estrangeiros.

Formada em Filosofia na UFRGS em 1975, fez Mestrado em Filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul em 1979 e Doutorado em Educação na UFRGS em 1995. Foi professora visitante do Departamento de Filosofia e História da Ciência da Universidade de Stanford, em 2001. A carreira da professora e pesquisadora Anna Carolina foi iniciada em 1976 no Departamento de Filosofia da UFRGS. No ano de 2002, transferiu-se para a Universidade do Vale do Rio dos Sinos, até 2013, quando passou a pesquisadora do Grupo Interdisciplinar em Filosofia e História da Ciência do ILEA-UFRGS.

Na sua profícua produção acadêmica em filosofia e história da ciência, dedicou-se particularmente à teoria darwiniana e evolução, bem como à epistemologia e análise da argumentação. Além de dezenas de artigos em periódicos acadêmicos e capítulos de livros publicados no Brasil e no exterior, foi autora do livro Charles Darwin, notas de viagem: a tessitura social no pensamento de um naturalista (Porto Alegre: EST/Grafosul, 1988) e co-editora de A filosofia e a ciência redesenham horizontes (São Leopoldo: Editora da Unisinos, 2005), Ciências da Vida: Estudos filosóficos e históricos (Campinas: AFHIC, 2006) e History and Philosophy of Science in the South Cone (London: College Publications, 2013).

Com muita tristeza registramos não apenas uma grande perda para a área de filosofia e história da ciência, mas para todo o mundo acadêmico que fica muito mais pobre sem uma pessoa tão justa e honrada como a professora Anna Carolina. O seu brilhantismo e carisma continuarão a iluminar muitas gerações.

Nesta tão triste despedida, expressamos nossa solidariedade aos familiares, colegas, estudantes e amigos de nossa muito querida Anna Carolina Regner.

Citação bibliográfica deste artigo:

CALDEIRA, Ana Maria de Andrade. Nota de falecimento: Anna Carolina Krebs Pereira Regner (1947-2020). Boletim de História e Filosofia da Biologia, 8 (2), mar. 2020. Versão online disponível em: <colocar endereço web>. Acesso em: dd/mm/aaaa.

Um depoimento pessoal sobre a professora Anna Carolina Krebs Pereira Regner (1947-2020)

Roberto de Andrade Martins
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
roberto.andrade.martins@gmail.com
Conheci a professora Anna Carolina Regner em 1989, em uma ocasião não muito agradável para ela. Nos anos de 1980 a 1983, ela havia realizado estudos de doutorado em Filosofia da Ciência na Universidade da Califórnia, em Berkeley, sob a orientação do professor Paul Feyerabend. Nessa ocasião, já havia iniciado seus estudos a respeito de Darwin. Por dificuldades familiares (duas filhas e um filho pequenos), Anna Carolina não concluiu o doutorado nos Estados Unidos e precisou retomar seu trabalho de docente de Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Alguns anos depois de retornar ao Brasil, resolveu tentar completar o seu doutorado. Conseguiu revalidar na Unicamp as disciplinas que havia cursado no exterior e precisava apenas redigir e defender sua tese, para obter o título de doutora junto ao curso de pós-graduação em Lógica e Filosofia da Ciência daquela universidade. Estava avançando em sua pesquisa sobre Darwin, quando foi pressionada para mudar o tema da tese, pois seu orientador passou a exigir que todos os seus estudantes se dedicassem ao estudo de certo filósofo que mais o interessava. A situação ficou bastante difícil para Anna Carolina.

No impasse que surgiu, o coordenador do curso de pós-graduação em Filosofia veio conversar comigo, para verificar se eu poderia assumir a sua orientação. Há muitos anos eu já me dedicava à história da Biologia e, especialmente, ao estudo de Darwin. Assim, a temática certamente me interessava. Porém, eu já não orientava mais estudantes do curso de pós-graduação em Lógica e Filosofia da Ciência da Unicamp, por causa de um conflito que havia surgido com outro professor daquele curso. Concordei em conversar com Anna Carolina, é claro, mas expliquei a ela que não daria certo transferir a orientação para o meu nome, porque ela teria que enfrentar novas dificuldades no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Ela entendeu a situação e, não havendo outra pessoa que pudesse supervisionar seu trabalho lá, desistiu de completar sua pós-graduação na Unicamp.

Apesar de não poder ajudá-la sob o ponto de vista institucional, ofereci-me para acompanhar sua pesquisa e a estimulei a continuar o trabalho sobre Darwin. A partir de então, passamos a manter um contato frequente e reuniões para discutir o andamento de sua tese. Ela já havia redigido algumas centenas de páginas de anotações e análises a respeito da epistemologia do Origin of Species, mas não sentia que estivesse chegando perto da finalização do trabalho. Sempre que ela podia, ia me visitar na Unicamp para conversarmos sobre sua pesquisa e eu insistia para que ela reduzisse suas expectativas e completasse a tese. Discutimos detalhadamente tudo o que ela já havia produzido e – devo dizer – em muitos pontos nossas interpretações a respeito de Darwin não convergiam. Nenhum de nós conseguia convencer o outro e aceitamos manter as discordâncias, sem que isso perturbasse a colaboração. Aprendi a respeitar o enorme cuidado que ela tinha, analisando frase por frase o Origin of Species, examinando atentamente o uso dos termos epistemológicos nas diversas passagens em que eles apareciam. Nessa época, ainda não existiam os recursos digitais que todos usam atualmente. Ela empregava uma fotocópia da sexta edição do Origin of Species, onde marcava com diferentes cores as ocorrências das expressões relevantes, em cada página. Já perto do final da pesquisa, ela conseguiu ter acesso a uma versão digital da obra de Darwin, o que poderia ter facilitado muito o trabalho – mas ela já havia realizado de forma não digital a análise exaustiva da terminologia empregada no Origin of Species.

Após ter desistido do doutorado da Unicamp, Anna Carolina não se inscreveu em nenhuma outra pós-graduação, mas aceitou minha sugestão de que poderia tentar obter o título de doutorado por defesa direta da tese, como eu próprio havia feito alguns anos antes. Infelizmente, ela não teve apoio por parte do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul para isso. No entanto, depois de algumas sondagens, surgiu uma possibilidade através do programa de pós-graduação em Educação de sua universidade. Mas era necessário completar a tese, é claro.

A essa altura, em 1994, as anotações de Anna Carolina continuavam a crescer, fora de qualquer controle. Eram mais de mil páginas, no formato em que estavam digitadas. Nosso contato esporádico não estava ajudando muito a direcionar a finalização da tese, por isso eu lhe sugeri que ela passasse algumas semanas na Unicamp, trabalhando intensamente para selecionar, fazer cortes, reduzir as ramificações e os desdobramentos quase infinitos, e produzir uma primeira versão do trabalho – com início, meio e fim. Ela conseguiu se organizar para ficar em Campinas por um tempo e eu obtive a autorização do Departamento de Raios Cósmicos e Cronologia (no qual eu trabalhava) para que ela pudesse utilizar uma sala exclusiva, durante esse período. Ela trabalhou incansavelmente, durante esse período. Todos os dias, conversávamos sobre os cortes e a nova estrutura do trabalho. Quando retornou para Porto Alegre, tinha uma primeira versão pronta de sua tese.

Depois disso, o trabalho correu rapidamente. Ela me enviava as versões revistas de cada capítulo, trocávamos mensagens sobre o trabalho e em poucos meses estava tudo pronto. Encarreguei-me de conseguir uma pessoa para rever todo o texto – um funcionário da Editora da Unicamp que fazia esse tipo de serviço fora de expediente. Eu próprio formatei a tese, reduzindo as margens, deixando espaço simples entre as linhas, utilizando um papel de tamanho ofício (formato maior do que A4) e sugeri que ela fizesse a impressão nas duas faces do papel, para que a tese tivesse uma aparência menos volumosa e não assustasse a banca.

Quando tudo ficou pronto, no início de 1995, eu estava me preparando para viajar para o exterior, pois ia passar um ano realizando estágio de pós-doutoramento na Universidade de Cambridge. Já estava na Inglaterra quando Anna Carolina recebeu a confirmação de que poderia defender sua tese e obter o título de doutora, sob a supervisão do professor Carlos Roberto Velho Cirne Lima. Ela me consultou, perguntando se eu queria que a defesa fosse realizada depois de meu regresso ao Brasil. Ponderei que ela não devia perder tempo e que minha presença na banca não era importante. Assim, depois de toda essa série de dificuldades, ela finalmente conseguiu realizar a defesa e obter o título de doutorado. Fiquei muito contente por ter podido ajudá-la a superar essa etapa. Essa colaboração estabeleceu uma amizade e admiração por sua capacidade e integridade, que continuou a se ampliar nos anos seguintes.

Anna Carolina foi uma pessoa forte, decidida, que não se deixava vencer pelos problemas que surgiam à sua frente. Mesmo após obter sua titulação, continuou a encontrar obstáculos e limitações no Departamento de Filosofia da URFGS, onde não foi autorizada a orientar estudantes de pós-graduação. Apesar dessa oposição de seus próprios colegas, Anna Carolina conseguiu se firmar, sob o ponto de vista institucional. Conhecida e respeitada por professores de diversos institutos e departamentos, ela começou a desenvolver atividades interdisciplinares que se consolidaram em um grupo de pesquisas que, inicialmente, pertencia ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Porém, em 1996, ele se transformou no Grupo Interdisciplinar de Filosofia e História das Ciências (GIFHC), sob sua coordenação inicial, ficando vinculado ao Instituto Latino Americano de Estudos Avançados da UFRGS. No mesmo ano, também por sua iniciativa, o GIFHC criou a revista Episteme: Filosofia e História das Ciências em Revista, da qual foi a primeira editora. No ano seguinte, o GIFHC começou a promover vários eventos, com a participação de convidados do exterior; e em 1998 organizou na UFRGS o congresso Filosofia e História das Ciências: I Encontro do Cone Sul, reunindo pela primeira vez um grande número de brasileiros, argentinos e de outros países da América Latina, que pesquisavam sobre história e filosofia das ciências e que, anteriormente, tinham pouco contato entre si. Para a realização de todas essas atividades, Anna Carolina contava com uma excelente equipe, que se dedicava de forma harmoniosa e intensa à organização dos eventos, publicações, reuniões etc. Todos nós que participávamos dessas iniciativas ficávamos admirados com a liderança e eficiência de Anna Carolina.

Logo após o Encontro de 1998, o intercâmbio entre pesquisadores do Cone Sul aumentou significativamente. Eu próprio, que nunca havia participado de nenhum evento na Argentina, estive pouco depois em Bariloche e, em seguida, em Córdoba. Da mesma forma, aumentou a vinda de pesquisadores da Argentina e de outros países vizinhos para o Brasil. Dando continuidade à iniciativa do GIFHC, em 2000 foi realizado o II Encontro de Filosofia e História das Ciências do Cone Sul, em Buenos Aires, sob a coordenação do professor Pablo Lorenzano, da Universidade de Quilmes. Nessa ocasião, foi criada informalmente a Associação de Filosofia e História da Ciência do Cone Sul (AFHIC), sendo escolhida uma Diretoria Provisória, ocorrendo depois de alguns meses a aprovação dos Estatutos da AFHIC e a eleição da primeira Diretoria regular. Anna Carolina teve um papel central na fundação da AFHIC, mas preferiu não ser a primeira Presidente, embora tal escolha fosse a mais natural, na ocasião. Com seu apoio, eu próprio fui eleito Presidente.

Em 2002, Anna Carolina se aposentou da UFRGS e, no mesmo ano, foi contratada e se tornou professora titular de Filosofia na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Não pertencendo mais aos quadros da UFRGS, coube a outros docentes daquela Universidade dar continuidade ao GIFHC e à revista Episteme. A partir dessa mudança de instituição, a atividade da professora Anna Carolina passou a ser mais individual – como professora, orientadora e pesquisadora – embora continuasse a ser uma figura central na Associação de Filosofia e História da Ciência do Cone Sul (AFHIC), da qual foi Presidente em 2009-2011. Teve também intensa participação na criação da Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB), sendo um de seus fundadores, participando de seus Encontros e auxiliando a Diretoria como parte do Conselho dessa associação.

Estivemos juntos em algumas batalhas que foram perdidas, como o projeto de memória da ciência nacional liderado pelo professor Manuel Domingos Neto, então vice-presidente do CNPq; o esforço pela criação de uma área específica de história e filosofia das ciências junto aos órgãos de fomento à pesquisa; a tentativa de redirecionar a Sociedade Brasileira de História da Ciência em relação a esses e outros caminhos para desenvolvimento da área em nosso país, em 2004; a proposta de homenagear Darwin, em 2009, dentro e fora do Brasil, através do “Ano Internacional de Darwin”; e várias outras atividades que não tiveram grande sucesso mas nunca nos desanimaram. Anna Carolina era uma lutadora, sempre entusiasmada pelo avanço da história e da filosofia da ciência em nosso país.

Durante mais de duas décadas, tive o prazer de manter contatos frequentes com Anna Carolina, principalmente quando nos encontrávamos, quase todos os anos, em congressos realizados no Brasil ou no exterior. Jamais tentamos escrever qualquer artigo de pesquisa em colaboração, acompanhando, no entanto, os trabalhos apresentados e publicados por cada um de nós. Nossas conversas giravam, quase exclusivamente, em torno de história e filosofia da ciência e das atividades realizadas nessas áreas no Brasil e nos países vizinhos. Pergunto-me agora que outros interesses ela tinha, além dessas áreas de pesquisa e de sua família – e confesso que não sei. Minha impressão subjetiva é a de que o centro de sua vida era o estudo e o ensino de história e filosofia da ciência – atividades às quais ela se dedicava com grande energia, competência e prazer. Gostava também de organizar eventos, grupos e publicações, mas certamente isso não era motivado por vaidade ou qualquer desejo de adquirir uma posição de destaque, e sim pela vontade de compartilhar com muitas pessoas o seu amor pela pesquisa e pelo conhecimento. Espero que o exemplo de dedicação e competência dado por Anna Carolina se torne mais conhecido, inspire e seja seguido por outras pessoas, por muito tempo.

Citação bibliográfica deste artigo:

MARTINS, Roberto de Andrade. Um depoimento pessoal sobre a professora Anna Carolina Krebs Pereira Regner (1947-2020). Boletim de História e Filosofia da Biologia, 8 (2), jun. 2014. Versão online disponível em: <colocar endereço web>. Acesso em: dd/mm/aaaa.

Anna Carolina Krebs Pereira Regner, transcendendo os limites da filosofia: Recordações

Aldo Mellender de Araújo
Departamento de Genética, Instituto de Biociências, UFRGS
aldo1806@gmail.com

Conheci a Anna Carolina nos últimos anos da década de 1980. Ela fora convidada a dar um seminário no Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde eu estava lotado como professor, em Porto Alegre, sobre “A argumentação de Darwin na Origem das Espécies”. Do alto da minha ignorância – e arrogância – pensei: “como que uma filósofa vem falar para biólogos sobre Charles Darwin?”. O seminário foi uma revelação para mim; a Anna Carolina foi maravilhosa como sempre (isso eu constataria tempos depois) e já ali, aprendi bem mais do que até então tinha lido sobre e do próprio Darwin.

Estimulado por este seminário, passei a organizar seminários mensais, ainda na década de 1980, sobre temas variados, incluindo filosofia, sociologia, psiquiatria, literatura. A Anna Carolina era uma das frequentadoras destes seminários e foi através deles que alguns professores da UFRGS, pertencentes a áreas diferentes resolveram criar um grupo de estudos interdisciplinar, que acabou recebendo o nome de Grupo Interdisciplinar em Filosofia e História das Ciências, (GIFHC) lotado no Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados, da mesma universidade. A Anna Carolina foi sua primeira presidente. Sob sua coordenação, fazíamos reuniões semanais de discussão de temas filosóficos e históricos nas ciências. O grupo tinha, inicialmente, professores das áreas de filosofia, psiquiatria, sociologia, educação, física (astronomia), química e biologia. Foi tão intensa a atividade deste grupo e estimulados pelo entusiasmo da Anna Carolina, que por volta de 1995 decidiu-se criar um periódico bianual. Este periódico veio a se chamar Epistéme – Filosofia e História das Ciências em Revista e seu primeiro número saiu em 1996; na capa, um desenho de Andrea Pereira Regner, filha de Anna Carolina, a qual, nas horas vagas do seu curso de medicina, dedicava-se a desenhar e a pintar. O Editorial do primeiro número (cujos artigos eram da autoria de integrantes do GIFHC) foi primoroso, escrito pela nossa coordenadora; transcrevo aqui um pequeno trecho do início do mesmo:

“O que pretendemos com uma revista acerca da filosofia e história das ciências? Que filosofia e história das ciências queremos? Uma reflexão filosófica sobre a ciência busca, fundamentalmente, analisar aquilo que a caracteriza e possibilita enquanto um tipo de conhecimento e atividade. Esta análise, por sua vez, pode operar desde um ponto de vista estritamente voltado à problemática própria da constituição de algo como ciência e a seu processo ‘interno’ de desenvolvimento, ou levá-lo ao questionamento das relações que se estabelecem entre este tipo de conhecimento/atividade e seu contexto sociocultural mais amplo.”

Os números seguintes de Epistéme, já tinham como autores, vários colegas latino-americanos, especialmente argentinos. Para incrementar nosso relacionamento com tais colegas, alguns integrantes do grupo participavam das tradicionais Jornadas de Epistemología e Historia de la Ciencia, organizado pela área de Filosofia da Universidad Nacional de Cordoba, Argentina, que ocorriam anualmente. Huerta Grande, La Falda e também a cidade de Córdoba foram locais onde as “jornadas” ocorreram. A Anna Carolina era muito conhecida e reconhecida pelos filósofos argentinos, incluindo os que trabalhavam com filosofia e história das ciências; nós outros do Grupo nos beneficiávamos desta admiração que os “hermanos” tinham por ela.

Em 1998, por iniciativa da Anna Carolina e endossada por todos os integrantes do GIFHC, organizou-se o Primeiro Encontro de Filosofia e História das Ciências do Cone Sul, em Porto Alegre. Este Encontro, ocorrido de 4 a 6 de maio de 1998, nas dependências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, reuniu uma grande quantidade de filósofos, cientistas, sociólogos, historiadores latino-americanos e outros; o volume 3, número 7 de Epistéme, apresentou as contribuições destes participantes. É importante salientar que este Encontro foi a “semente” para a fundação da Associação de Filosofia e História da Ciência do Cone Sul (AFHIC – fundada em 2000). Este Encontro contou com a presença de 237 participantes, oriundos de 40 instituições diferentes da América Latina. O Segundo Encontro ocorreu no ano seguinte, na Universidad de Quilmes, Argentina, onde ficou escolhido o Comitê Diretivo Transitório, sendo a presidente nossa querida Anna Carolina. Cinco dos integrantes do nosso Grupo Interdisciplinar estão na lista de sócios fundadores da AFHIC (afhic.com/pt/134-2/).

Muitos eventos do Grupo Interdisciplinar da UFRGS, foram inspirados pela Anna Carolina nos anos em que ela esteve integralmente dedicada ao mesmo. Por estes eventos passaram, Timothy Lenoir, Ian Hacking, Michael Ruse, Vassiliki Smocovitis, Robert Richards, além de vários outros latino-americanos de renome internacional. A partir de 2002 tendo se aposentado da UFRGS, ela se transferiu, para a Universidade do Vale do Rio dos Sinos, UNISINOS, onde atuou na graduação e pós-graduação; lá ela também organizou eventos importantíssimos, um dos quais se transformou em livro, organizado por Anna Carolina e Luiz Rohden (2005), A Filosofia e a Ciência Redesenham Horizontes. Uma ótima entrevista com a Anna Carolina foi feita pela Profa. Russel Teresinha Dutra da Rosa e está publicada em Epistéme, 19: 9 – 20, 2004, em uma seção que abria os números da revista, intitulada “Conversando Com”.

Ao fazer esta breve recordação da Anna Carolina e sua interação com os colegas de diferentes procedências, encontrei um vídeo de uma de suas palestras para os alunos de filosofia da UNISINOS: Filosofia da Ciência Hoje, ocorrida no dia 31 de maio de 2013; foi emocionante poder ouvir sua voz novamente (www.youtube.com/watch?v=d3g8MOeq1ws).

Citação bibliográfica deste artigo:

ARAÚJO, Aldo Mellender de. Anna Carolina Krebs Pereira Regner, transcendendo os limites da filosofia: Recordações. Boletim de História e Filosofia da Biologia, 8 (2), jun. 2014. Versão online disponível em: <colocar endereço web>. Acesso em: dd/mm/aaaa.

Objetivos do Boletim

O objetivo do “Boletim de História e Filosofia da Biologia” é divulgar informações de interesse dos pesquisadores e estudantes interessados em história e filosofia da Biologia. Com periodicidade trimestral, este Boletim traz informações atualizadas sobre congressos e outros eventos relevantes (no Brasil e no exterior), novas publicações da área (livros e revistas), informações sobre teses e dissertações, informes sobre as atividades da Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB), bem como artigos curtos, descritos abaixo.

Poderão ser publicados no “Boletim de História e Filosofia da Biologia” artigos assinados (curtos) que discutam temas gerais de interesse da área como, por exemplo, a metodologia da pesquisa em história e filosofia da biologia, ou o uso da história e filosofia da biologia no ensino; bibliografias comentadas sobre tópicos específicos de história e filosofia da biologia; e textos de divulgação. Podem também ser publicadas resenhas, assinadas, de livros recentes sobre história e/ou filosofia da biologia, bem como tradução de trechos de fontes primárias relevantes da história e/ou filosofia da biologia, acompanhada de breve introdução e notas. Os artigos devem ser submetidos aos Editores deste Boletim (ver endereços no Expediente, ao final deste número). Todos os artigos submetidos devem ser elaborados tendo em vista os padrões acadêmicos usuais.

Boletim de História e Filosofia da Biologia

O “Boletim de História e Filosofia da Biologia” é uma publicação trimestral da Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB), iniciado em setembro de 2007, por Roberto de Andrade Martins. A partir de março de 2011 passou a ser editado por: Maria Elice Brzezinski Prestes, eprestes@ib.usp.br (Universidade de São Paulo); Lilian Al-Chueyr Pereira Martins, lilian.pereira.martins@gmail.com (Universidade de São Paulo/Ribeirão Preto); Aldo Mellender de Araújo, aldo1806@gmail.com (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e Waldir Stefano, waldir.stefano@mackenzie.br (Universidade Presbiteriana Mackenzie e Universidade Cruzeiro do Sul).

Endereço eletrônico: boletim@abfhib.org.
URL: http://www.abfhib.org/Boletim

Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB)

Presidente: Ana Maria de Andrade Caldeira (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho / Bauru)
Vice-Presidente: Maurício de Carvalho Ramos (Universidade de São Paulo)
Secretário: Frederico Felipe de Almeida Faria (Universidade Federal de Santa Catarina)
Tesoureira: Viviane Arruda do Carmo (GHTB / USP)

Conselho:

Aldo Mellender de Araújo (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
Lilian Al-Chueyr Pereira Martins (Universidade de São Paulo/Ribeirão Preto)
Maria Elice Brzezinski Prestes (Universidade de São Paulo)
Nelio Marco Vincenzo Bizzo (Universidade de São Paulo)

http://www.abfhib.org