ISSN 1982-1026

Boletim de História
e Filosofia da Biologia

Publicado pela Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB)

Artigo: “Desvendado o mistério: o autor do artigo ‘Gregor Mendel: An Opponent of Descent with Modification’ aparece e revela a fantástica história obscurecida pelo Muro de Berlim!”

Nelio Bizzo
USP/UNIFESP
bizzo@unifesp.br

Quem já realizou um levantamento bibliográfico sobre artigos a respeito do trabalho de Mendel certamente se deparou com o artigo citado no título acima, desta contribuição: “Gregor Mendel: An Opponent of Descent with Modification”, publicado em 1988. E, muito provavelmente, esse pesquisador foi atrás de outras publicações do mesmo autor (ou autora), L. A. Callender. O artigo traz informações sobre pesquisa realizada em Brno, no local onde estão depositadas relíquias preciosas, como o exemplar de A Origem das Espécies que pertenceu a Mendel e que tem muitos rabiscos. O autor (ou autora) diz que seu trabalho faz parte de uma “tese não publicada”, indicando o fato de não ter encontrado um editor comercial disposto a publicá-la, o que, cá entre nós, ocorre com a grande maioria de nossas teses e dissertações.

A conclusão da referida tese aparece estampada no título: Mendel era um anti-evolucionista, talvez até mesmo um criacionista ao estilo de Lineu, admitindo algo como cruzamentos e híbridos originais, mas nenhuma “transmutação”, como era chamada. Não é razoável que alguém tenha realizado um trabalho de pesquisa em fontes primárias, remexendo nos papéis de Gregor Mendel, que, por sua vez, apresentou seus resultados sobre cruzamentos de ervilhas em uma sessão de congresso científico no qual se discutiam as ideias de Darwin no auge de sua repercussão, não é razoável supor que tenha concluído uma tese de doutorado afirmando que Mendel era contrário a elas e tenha publicado apenas um artigo relativamente curto a respeito. No entanto, ao buscar outras publicações com a mesma autoria, chega-se a um desconcertante fracasso. Não se pode achar mais nada! Como isso seria possível?

Uma alternativa seria a de escrever para a faculdade londrina que aparece como filiação institucional da autoria, ainda mais ao ver o mesmo sobrenome entre os docentes da casa. E mais uma decepção: não uma, mas duas docentes têm o mesmo sobrenome e nunca ouviram falar de L. A. Callender. Uma visita à biblioteca da instituição inglesa pareceria ser uma alternativa infalível de finalmente conhecer a tal tese. No entanto, nem mesmo isso resulta em sucesso. Restava o mistério. Uma tese com resultados revolucionários, trabalho conhecido de quase todo historiador da área e todos, simplesmente todos os com quem conversei e que conheciam o artigo não tinham a menor ideia de quem fosse o autor (ou autora). O que teria ocorrido com esse verdadeiro “Oscar Wilde” da História da Biologia? Eu próprio achava que ele deveria ter estado envolto em alguma história trágica a ponto de não ter tido a oportunidade de escrever mais sobre suas descobertas e conclusões.

Qual não foi minha surpresa ao receber, há pouco tempo, um contato de um certo Lenval Alan Callender, que havia lido um trabalho de minha autoria (junto com Paulo Sano e Paulo Henrique Nico Monteiro) sobre o mesmo tema, publicado em português, na revista Genética na Escola, em um número especial sobre Mendel. Ele adiantava algumas críticas, as quais eu muito agradeci e perguntei sobre seus outros trabalhos sobre o tema e sobre sua tese mencionada no artigo de 1988. A história que ele me contou me surpreendeu a tal ponto de escrever no mesmo dia para meus grandes ídolos da História de Biologia que moram (relativamente) perto de Londres: John Hodge, Jim Moore, Greg Radick e Peter Bowler. De fato, eles ficaram igualmente surpresos com as revelações.

Lenval Alan Callender era estudante de doutorado, disposto a realizar um trabalho de História da Biologia com as fontes primárias recolhidas em Brno, na então Tchecoslováquia. Ele era orientado de ninguém menos que o prof. Vítězslav Orel (1926-2015), por muitos anos diretor do Mendelianum, que ajudara a organizar, desde o início dos anos 1960. Mendel era tido como um inimigo da ciência soviética, em especial pela oposição às ideias de Lisenko. O país estava ocupado pelas tropas soviéticas e Darwin era há muito um grande ídolo no bloco das repúblicas socialistas. Qualquer evidência de que aquele famoso padre católico tivesse sido contrário às ideias de Darwin, além das de Lisenko, colocaria em sério risco a própria existência daquele lugar dedicado a preservar sua memória e incentivar estudos seguindo suas conclusões.

Não constitui surpresa, portanto, que um pesquisador já maduro, que havia publicado seu primeiro artigo em 1968, sobre purificação de DNA polimerase, não encontrasse muito entusiasmo de seu orientador ao lhe apresentar uma conclusão que comprometia a própria existência da instituição que ele dirigia. O prof. Orel se esforçava em mostrar justamente o contrário, ou seja, a plena compatibilidade entre Mendel e Darwin, apregoada desde o início do século XX por Bateson, o darwinista mais entusiasmado com o trabalho de Mendel que se teve notícia. O que Orel fez com a tese de Callender? Ele simplesmente a reprovou, dizendo que ele não a subscrevia e, portanto, ele que tratasse de chegar a outra conclusão ou mudar de programa de pós-graduação. Simples assim!

A “tese não publicada”, na verdade, foi uma tese não apresentada, que ficou no arquivo de seu autor, sem que ninguém dela tivesse tido notícia. Assim, o significado de “unpublished thesis” é bem diferente de sua tradução literal em português e de seu significado em nossos programas de pós-graduação. O estudante que não pode apresentar sua tese simplesmente está reprovado e perde todos os créditos. Não surpreende, portanto, que Lenval Alan Callender tenha decidido mudar de campo, especializando-se em Immanuel Kant, com uma nova tese, e dedicando todo o resto de sua carreira com a filosofia kantiana.

O caso é absolutamente interessante, pois após o falecimento do prof. Orel sua atuação tem sido estudada e uma publicação recente fala justamente da maneira apaixonada como ele defendeu Mendel. Mas os efeitos da ocupação soviética parecem sublimados nesse contexto e essa história pode ser tomada como uma nova lanterna para lançar luz nesse período obscuro da história.

Perguntei se ele pensa em finalmente publicar sua tese e sua resposta foi positiva. Ele está aposentado, depois de ter feito carreira no famoso Trinity College, em Dublin (Irlanda), seu vínculo institucional desde seu tempo de estudante. Aliás, outro aluno da mesma instituição foi justamente… Oscar Wilde!

Citação bibliográfica deste artigo:

BIZZO, Nelio. “Desvendado o mistério: o autor do artigo ‘Gregor Mendel: An Opponent of Descent with Modification’ aparece e revela a fantástica história obscurecida pelo Muro de Berlim!”. Boletim de História e Filosofia da Biologia, 14 (4), dez. 2020. Versão online disponível em: http://www.abfhib.org. Acesso em: dd/mm/aaaa. [colocar a data de acesso à versão online]